Era
uma vez um estancieiro, ele era muito mau e era o meu pratão. Ele possuía uma
ponta de surrões de onças e meias-doblas e diversas pratarias. Ele era tão
pão-duro que não dava hospedaria para ninguém e não emprestava seu cavalo. Na
sua casa durante o inverno, seu fogo não fazia brasas. As pessoas poderiam
morrer de frio, que sua porta não abria. No verão, a sombra de seus umbus só
era para os cachorros, e ninguém poderia beber sua água.
A
consequência de tudo isto é quando alguém precisava de algum serviço, ninguém
vinha lhe ajudar. Porque o homem dava para comer um churrasco magro, farinha
grossa e erva e nem um fumo a oferecer. E sendo choramingando, como se fosse a
pele dele que estivesse a dar.
O
estancieiro só dava atenção para seu filho e para mim. E parecia também que seu
filho só tinha olhos para mim, pois em todas as tarde eu sofria com os tratos
deste, que judiava de mim e só ria. Eu, um escravo preto como carvão a quem
todos me chamam de Negrinho. Eu não tenho nome e nem padrinho, a única coisa
que tenho neste mundo é a Virgem, Senhora Nossa.
Num
dia, o estancieiro atou com seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os
pobres, mas o estancieiro não concordou, e disse que a parada era pra ser do
dono do cavalo que ganhasse. De tão ruim que era... E esta parada era com mil
onças de ouro.
Então
eles fizeram sua corrida. E começou a tormenta: começaram a dizer que era
empate! E eu apavorado, comecei a gemer para minha madrinha, com muito
medo. Pois sabia que o estancieiro ia
judiar-me. Até que o júri disse que o nosso cavalo havia perdido. Assim, depois vieram, e me prenderam pelos
pulsos e me deram uma coça. Tudo pelas aquelas malditas onças da corrida do
cavalo.
Na
madrugada, o estancieiro veio e me levou ao alto das coxilhas. Sabia que boa
coisa não poderia ser, e então ele me disse: — Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste:
trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos
negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca! Caí a
chorar enquanto pastavam. Era a pior sensação do mundo. Estava morrendo de
fome, quase sem forças e o único lugar que me veio a mente para descansar era a
um cupim. Tudo parecia não conspirar a favor à mim, até mesmo as corujas que me
rodeavam pareciam estar rindo da minha
situação. Fiquei muito assustado com tudo, com medo então eu pensei na minha
madrinha Nossa Senhora, que foi me tranquilizando até cair no sono.
Quando acordei, ou melhor, fui acordado pelo tropel só escutei berros, e
os galos cantando. Nem o céu eu enxergava. Olhei ao arredor e não havia mais
nada; não havia mais o pastoreio. Comecei a chorar. As coisas não estavam indo
bem. O estancieiro mandou me prender daquele mesmo modo novamente. E depois
pediu para eu ir procurar o perdido. Quando eu fui, só o que me restava era um pingo de esperança, e eu
ia chorando pensando na minha madrinha. Parei então, e fui ao oratório da casa
e tomei a vela acesa da imagem e saí para o campo, na minha missão.
Eu fui seguindo, e por onde eu passava a vela
ia pingando cera e parecia que dali nascia uma luz, que assim clareavam todo
meu ver. Assim eu pude ver onde estava o gado, o pastoreio e toquei a diante.
Por aquele momento eu pus-me a rir. Depois, gemendo de dor, de angustia, de
cansaço, de tudo me deitei ao cupim e tudo se apagou, a única coisa que agora
rodeava minha mente era o meu sonho, era a minha madrinha. Porém quando clareou
o dia o menino veio me acordar e dizendo ao meu patrão que os cavalos não
estavam lá. Não era possível! Aquele menino desgraçado botara pra fugir eles só para me ver sofrer.
E caí a chorar...
Não era surpresa para mim que iam judiar de mim
novamente. E que se eu contasse no que eu acreditara, o patrão ia me maltratar
mais. E então ele se pôs a fazer novamente comigo o que já tenha feito. Mas
desta vez foi mais intenso, meu sangue foi se escorrendo pelo corpo e eu ali
pedindo para minha madrinha me ajudar, me iluminar. Gritando. Tinha sido meu
fim.
Porém com tudo isso que o estancieiro me fez,
ele ficou transtornado. Minha alma estava ali só observando-o no meio daquele
formigueiro que ele me botara. Juntamente com minha madrinha e os trinta
tordilhos. Estava eu sarado e risonho, toquei a tropilha a galope, e o senhor
ajoelhou-se diante de mim. Assim foi a ultima vez que achei o pastoreio. Não
chorei e nem ri.
Muitos acenderam velas por mim. E quando
qualquer cristão pedia algo, eu campeava e achava, mas só entregava se
acendesse uma vela à minha madrinha, que me salvou e deu-me uma tropilha, que
conduz e pastoreio, sem ninguém ver.
Todos os anos, eu desapareço, durante três dias,
em algum formigueiro e visito minhas amigas formigas. E ao nascer do sol do
terceiro dia eu monto-o e vou fazer minha recolhida. É quando acontece as
disparada das cavalhadas e olham e não vê ninguém.
E eu vou conduzindo o pastoreio, sarado e
risonho, cruzo os campos, corta os macegais, bandeio as restingas, desponto os
banhados, varo os arroios, subo as coxilhas e desço às canhadas. Andando
sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus
donos, desde que acendam uma veja. Cuja luz levo para o altar da Virgem Senhora
Nossa, madrinha dos que não a têm.